Não é de hoje que a autoridade do professor em sala de aula tem sido colocada à prova por meio de conflitos envolvendo os docentes, alunos e pais. O caso ocorrido na Escola de Referência em Ensino Médio (Erem) Apolônio Sales, localizada no bairro do Ibura, Zona Sul do Recife, em que uma ex-aluna e sua mãe moveram uma ação judicial contra o professor Jeff Kened Barbosa de Melo por ele ter pedido para que ela trocasse de lugar a fim de cessar as conversas que estariam atrapalhando o curso da aula, trouxe à tona uma realidade comum na área de educação, o desrespeito pela figura do professor.

De acordo com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco (Sintepe), José Fernando de Melo, o fato de a Justiça condenar a ex-aluna e a mãe a pagarem uma indenização de R$ 5 mil ao professor Jeff Kened por danos morais, por entender que o constrangimento relatado pela jovem não se configurava em “dor, vexame, sofrimento e humilhação”, abre um momento de reflexão importante.

“Precisamos repensar sobre como tem sido colocada a linha da educação dentro de uma sociedade que muitas vezes não está capacitada para ouvir e entender uma opinião contrária”, disse. “Recebemos várias denúncias sobre conflitos em sala de aula e é necessário que o professor tenha suporte maior no seu papel de educador. Muitas vezes ele tem a formação de conteúdo, mas não tem a formação de educador porque tem que trabalhar em três turnos, seja na rede estadual, municipal ou privada”, sinalizou o presidente do Sintepe.

Para o presidente do Sindicato dos Professores de Pernambuco (Sinpro), Hemilton José Gonçalves, a decisão favorável ao professor da Erem – que ainda pode ser contestada na Justiça – é uma “luz no fim do túnel por um bem coletivo”. “Não podemos colocar como um ganho, mas essa é a realidade muito comum na sala de aula, de desrespeito e até violência. Esse caso mostra simbolicamente que não estamos só partindo da perspectiva da autonomia do professor”, declarou. A Secretaria Estadual de Educação se manifestou através de nota, afirmando que “prioriza a resolução de eventuais conflitos ocorridos nas escolas da Rede Estadual dentro da própria escola, junto à gestão e aos diretamente envolvidos. A Secretaria e as Gerências Regionais de Educação acompanham, quando acionados, de maneira a assegurar que seja garantido o direito de professores e de estudantes em cada caso”, segundo a nota.

O episódio que causou repercussão ocorreu em abril de 2016. “Ela, que estava perto de completar 18 anos, disse que não iria mudar de lugar e que eu não tinha autoridade sobre ela. No dia seguinte, a aluna chegou com sua mãe, que me disse que iria me processar por danos morais”, conta o professor Jeff Kened. “Elas acionaram o Ministério Público de Pernambuco (MPPE), o Conselho Tutelar e a Gerência Regional de Educação (Gere) Recife Sul, mas não obtiveram êxito, pois as comissões examinaram minha conduta e viram que não condiziam com as acusações”, completa.

O docente, que leciona física e matemática há oito anos na Erem Apolônio Sales, disse ter sofridos danos psicológicos por conta do caso. “Passei três dias sem dormir e me alimentar. Nunca havia passado por isso, mas é fato que tem crescido o número de casos de violência, que não necessariamente precisam ser física, dentro das escolas. Há muitos órgãos que estão sempre dispostos a falar os direitos dos alunos, mas e os deveres? O dever de se comportarem, de respeitar o professor, de responder quando questionamos”, crítica Kened. (Via: Folha PE)

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